5. INTERNACIONAL 13.2.13

1. 60 MILHES DE EUROS
2. JEAN-PAUL SARTRE NO INFERNO
3. SOBRE PES E CHORIZOS
4. O COMEO DO FIM

1. 60 MILHES DE EUROS
 quanto o Google vai pagar  imprensa francesa para continuar a usar o contedo fornecido por jornais e revistas ao site de buscas. Que sirva de modelo.
MARIO SABINO, DE PARIS

     O lanamento do Google, em 1998, representou uma revoluo dentro de outra revoluo  a causada pela internet. Hoje, bilhes de pessoas lanam mo do site de buscas americano para informar-se do que vai pelo mundo, fazer pesquisas escolares e profissionais ou simplesmente adquirir um verniz para no fazer feio em ocasies especiais. Nesse ltimo aspecto, o Google criou, para lembrar a frase de Millr Fernandes, a cultura prt--porter. Graas  sua agilidade na difuso de notcias e afins, esse gigante da internet movimentou s no ano passado mais de 50 bilhes de dlares. Mesmo diante de concorrentes poderosos, como a Microsoft, que tentam abocanhar parte de seu pblico, a fora do Google no d sinais de arrefecimento. Pelo contrrio. Seu lucro continua a aumentar em porcentagens chinesas.
     Uma poro cada vez maior do faturamento  proveniente de publicidade. Voc resolve fazer uma pesquisa e, pimba!, aparece na tela do computador uma srie de referncias a jornais, revistas e sites de informao. Feita a escolha das pginas indexadas, ao lado de muitas delas h anncios vendidos pelo Google  e, aqui vai um parntese, seus proprietrios j foram acusados de direcionar os usurios para as que contm propagandas comercializadas pela empresa, deixando em segundo plano a sua relevncia para o leitor. O Google depende, enfim, da imprensa para existir e vender publicidade, mas, nesse estranho mundo do almoo de graa da internet, no vinha pagando nada aos fornecedores de contedo. H pouco mais de uma semana, essa disfuno comeou a derreter.
     Depois de uma queda de brao de dois meses com a imprensa francesa  durante a qual o Google ameaou retirar todas as referncias aos meios de comunicao do pas, num misto de homicdio e suicdio virtuais, j que essa seria uma atitude destrutiva para ambos os lados , o governo do presidente Franois Hollande interveio para resolver o problema. Hollande e o presidente do Google, Eric Schmidt, assinaram um acordo considerado histrico, pelo qual o site pagar 60 milhes de euros a um fundo de auxlio a jornais e revistas da Frana, para que eles faam uma transio mais rpida e eficaz para o meio eletrnico. Sites de informao sem similares em papel tambm sero beneficiados.
     Disse Hollande: No se sabe se esse acordo indito servir de modelo, mas ele mostra que  preciso uma aliana entre os produtores de contedo e seus difusores. De fato, no importa a latitude, j passou da hora de sites de busca pararem de canibalizar a imprensa, faturando com anncios e no pagando nada por isso a quem os permite crescer. Foi na Frana, ainda, que se levantou outra questo recentemente: operadoras de telefonia e internet, investidoras pesadas em banda larga, queixam-se de que empresas como o Google e o Facebook congestionam sua infraestrutura e, pior, gratuitamente. O governo Hollande est empenhado em apaziguar esse fronte. Ao final, no deixa de ser irnico que seja um socialista a tirar a internet da selva de um capitalismo em que a maioria dos capitalistas perde.

OURO ELETRNICO
Em 2012, o Google movimentou 50,2 bilhes de dlares, 32% mais do que no ano anterior.
Seu lucro foi de 10,8 bilhes de dlares, 2,9 bilhes apenas no ltimo trimestre.
o faturamento com publicidade foi de 43,7 bilhes de dlares, 20% a mais do que em 2011.
No fim do ano passado, cada ao do Google proporcionou um lucro de
10,65 dlares, 13 centavos acima do que previa o mercado.


2. JEAN-PAUL SARTRE NO INFERNO
Ele era contra o terror na Alemanha. Mas no Brasil...

     O efeito colateral mais nefasto do movimento estudantil anticapitalista que, em maio de 1968, sacudiu Paris foi o surgimento de organizaes terroristas de esquerda na Europa. As Brigadas Vermelhas, na Itlia, e o grupo Baader-Meinhof, na ento Alemanha Ocidental, compostos de universitrios desmiolados e conduzidos por idelogos recalcados, foram duas das pragas mais virulentas dos anos de chumbo. O Baader-Meinhof tinha as Brigadas como modelo  tanto que seu nome oficial era Frao do Exrcito Vermelho. Uma de suas aes mais vistosas ocorreu em 1970, quando Andreas Baader foi libertado da priso pela jornalista Ulrike Meinhof. A partir de ento, a gangue alem passou a ser conhecida como Baader-Meinhof.
     Andreas Baader voltou a ser preso em 1972. De acordo com documentos recm-liberados pelo governo alemo, ele recebeu a visita do filsofo francs Jean-Paul Sartre na penitenciria de Stammheim. O encontro entre o filsofo e Andreas Baader, em 4 de dezembro de 1974, ocorreu sob os auspcios de Ulrike Meinhof. Ela esperava que Sartre, ao conhecer pessoalmente o companheiro preso, declarasse apoio ao bando. O filsofo, porm, disse a Baader que o terrorismo era justificvel no Brasil, como um trabalho de base, para mudar a situao, uma vez que a realidade do proletariado alemo era diferente da brasileira.
     Depois da visita, Sartre somente deplorou a desumanidade do isolamento de Andreas Baader na priso. Ou o filsofo era um ingnuo, que de fato acreditava que as organizaes terroristas brasileiras de esquerda queriam derrotar a ditadura militar para instaurar uma democracia, ou tinha dois pesos em uma balana defeituosa. Na Europa civilizada, j haveria condies para que o proletariado afluente fizesse sua transio gloriosa para o marxismo, sem precisar recorrer ao terror. Na Amrica Latina, por seu turno, uma terra de brutos, o terrorismo seria necessrio para fazer aflorar a conscincia de classe no operariado e, dessa forma, lev-lo  revoluo. Em ambos os casos, Sartre sai bem menor do que o autor segundo o qual a existncia precede a essncia e, assim, o homem se transforma por meio de seus atos. Condio que deveria nos tornar ainda mais atentos para no fazer da nossa prpria vida, bem como da dos outros, um inferno.
M.S., DE PARIS


3. SOBRE PES E CHORIZOS
No bastasse a penria econmica, agora a Espanha tem o partido no poder envolvido em um escndalo de corrupo.
NATHALIA WATKINS

No h po para tanto chorico, bramavam na semana passada, em Madri, os espanhis indignados com o escndalo de corrupo envolvendo o Partido Popular (PP), do primeiro-ministro Mariano Rajoy. O chorizo  a popular linguia, que, na gria espanhola, tambm  sinnimo de ladro. O fato  que os corruptos sempre encontram o que surrupiar, mesmo em um pas cuja economia encolheu 1,37% no ano passado e onde uma em cada quatro pessoas em idade ativa est desempregada. O catalisador dos protestos foi um documento de catorze folhas escrito a mo, datado do perodo entre 1990 e 2008, atribudo a Luis Brcenas, ex-senador que ocupou o cargo de tesoureiro do PP por vinte anos. O texto, obtido pelo jornal espanhol El Pas, lista doaes feitas por empresrios  legenda, e que depois teriam sido distribudas a seus membros. Na Espanha, os partidos podem receber doaes privadas, desde que as empresas no tenham negcios com o governo, que o valor no ultrapasse 80.000 dlares por ano e que o dinheiro seja declarado ao Tribunal de Contas. Algumas das empresas listadas, porm, so construtoras que tocam obras pblicas. Alm disso, parte das doaes entrou informalmente na contabilidade do partido  o caixa dois, ou caja B, em espanhol. A lista foi divulgada no ms passado pelo jornal El Pas, depois que autoridades da Sua descobriram uma conta bancria com 29 milhes de dlares em nome de Brcenas. Rajoy aparece como um dos beneficirios, tendo recebido o equivalente a 66.000 reais por ano, ao longo de uma dcada. O premi afirma no ter ganho um centavo sequer, e Brcenas diz que a letra no documento no  a sua.
 primeira vista, o caso se assemelha ao mensalo brasileiro, mas h mais diferenas do que semelhanas entre os dois escndalos. O dinheiro que Rajoy teria recebido corresponde a um tero do seu ordenado. No Brasil, os deputados chegavam a mais que dobrar os rendimentos com a mesada obtida por baixo do pano. O esquema espanhol tambm no tinha como objetivo a compra de votos no Parlamento e envolve apenas um partido. Isso no alivia em nada o constrangimento do governo. As acusaes pegaram Rajoy em um momento delicado. Com pouco mais de um ano de mandato, ele, carrega a responsabilidade de impor medidas impopulares para tirar a Espanha da crise econmica. A oposio pede sua renncia. Para o senso comum, roubar 1000 euros em tempos de crise parece 100 vezes pior do que embolsar 1 milho de euros em poca de fartura, diz o cientista poltico espanhol Victor Lapuente, especialista em corrupo da Universidade de Gotemburgo, na Sucia. O drama dos espanhis  que, caso Rajoy caia, no h uma boa alternativa para substitu-lo. Os socialistas do PSOE, o segundo partido mais forte do pas, so tidos como incapazes de lidar com a crise econmica. Triste o povo que tem de se preocupar mais com a falta de po do que com o excesso de chorizos. 


4. O COMEO DO FIM
A Argentina entra na fase terminal da criogenia.

     A presidente Cristina Kirchner nunca admitiu a existncia de uma inflao alta na Argentina. As consultorias independentes e o resto do mundo afirmam que o ndice est em 25% ao ano. Para ela, se isso fosse verdade, a Argentina explodiria. Oficialmente, a taxa no passa de 11% ao ano. No comeo do ms, o Fundo Monetrio internacional (FMi) criticou o pas por maquiar as estatsticas econmicas. Na semana passada, a farsa tornou-se insustentvel. De forma indireta, o governo admitiu a prpria hipocrisia ao anunciar um acordo com as redes de supermercados e com as lojas de eletrodomsticos para congelar os preos at 1 de abril. Os setores de combustveis e de material escolar tambm esto sob presso.
     Os argentinos j tm uma experincia recente, e malsucedida, de congelamento de preos. O falecido Nstor Kirchner, quando era presidente, decretou a mesma medida em 2005. Ele determinou que o preo de 250 itens da cesta bsica no poderia aumentar. A lista foi ignorada em todas as provncias. No ano seguinte, Nstor tentou de novo. Em vo. Os fabricantes ficaram com medo de ter prejuzo e cortaram os investimentos. Com isso, produtos sumiram das gndolas, dando um estmulo a mais  espiral inflacionria. Tudo isso deve se repetir agora.  quase certo que, aps algumas semanas congelados, os preos voltaro a subir ainda mais rapidamente. Em fevereiro e maro, provavelmente a inflao ser atenuada, e voltar ainda mais forte em abril, diz Juan Luis Bour, economista-chefe da consultona Fiel, em Buenos Aires.
     A soluo definitiva para a inflao implicaria uma reduo dos custos do estado. Cristina teria de cortar os gastos com suas polticas populistas, como a nacionalizao de empresas e a transformao do governo em cabide de empregos. Nos ltimos seis anos, o nmero de funcionrios pblicos tem crescido 6% ao ano. As despesas excessivas obrigam o governo a emitir mais dinheiro, gerando inflao. Curiosamente, o aumento do custo de vida no parece ser a principal preocupao da presidente. Suspeita-se que ela queira conter a remarcao de preos apenas para ter um argumento contra os pedidos de reajuste salarial do funcionalismo pblico. Os sindicatos pedem correes de at 30%, um custo que poucas empresas e rgos pblicos so capazes de absorver. Enquanto no houver uma poltica econmica consistente, os efeitos de qualquer medida sero temporrios e a inflao continuar sendo um problema, diz o economista Matas Carugati, da consultoria Managemem & Fit. O difcil  Cristina se convencer disso. 
TATIANA GIANINI


